Depois de atuar por mais de 20 anos como vereador, o político Sérgio Benassi (PC do B) assume um novo desafio em sua carreira: ser secretário municipal de Transportes da Prefeitura de Campinas e presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec). Em sua atuação na Câmara Municipal, foi responsável por centenas de projetos de lei em diversas áreas, sendo 102 direcionados ao setor de transportes e trânsito. Inclusive foi o autor da lei que estabelece a concessão atual para o transporte público e cria o Sistema InterCamp. Criou também a regra que determina a existência de um curso de reciclagem para cobradores e motoristas. O novo secretário de Transportes ainda foi responsável pela lei que cria a Semana Municipal do Trânsito em Campinas, em 2007, e pelo projeto que regulamenta as regras para o serviço de motofrete, fretamento e transporte escolar.

Sérgio Benassi concedeu essa entrevista um mês após assumir a pasta, tempo no qual se inteirou dos problemas que irá enfrentar e quais serão seus desafios para o próximo ano.

 

Quais são seus planos para o transporte?

A principal questão que eu levo em conta é o contrato de gestão que está em vigor. Não há como conceber a gestão do transporte desconsiderando todo o processo instalado, que já está com sete anos e tem mais sete anos pela frente, podendo inclusive ser renovado. Minha primeira grande tarefa é eu ser um gestor efetivamente cauteloso e rigoroso, prevendo e apostando na eficiência do sistema já criado.

A cidade passou por uma grande transformação ao estabelecer um novo sistema e, principalmente, ao criar uma noção de integração entre os vários modais de transporte, coisa que a cidade não tinha. A gente não tinha um serviço satisfatório.

Eu compreendo e participei da implantação do atual sistema e, evidentemente, ele está passando por transformações e eu sou o gestor disso, tenho de ser a pessoa que aposta nisso e vai cobrar o que está sendo realizado com sucesso e negociando alternativas para melhorar o serviço, trazer mais conforto, segurança, eficiência, agilidade e a integração, gerando uma sinergia positiva.

 

Há mudanças previstas?

Campinas é uma cidade que está passando por grandes transformações econômicas: nossa cidade está vivendo uma fase de expansão significativa, a renda da população aumentou, a empregabilidade é altíssima, o sistema está incorporando uma demanda estressante e a gente tem de ser muito ágil. Dou um exemplo: com a expansão do Aeroporto de Viracopos, estamos sofrendo uma pressão muito grande com o número de pessoas que passaram a usar linhas que antes eram secundárias no sistema e o problema não envolve apenas mais passageiros. Envolve a criação de mais linhas, mais ônibus, mais terminais, mais pontos de ônibus, mais itinerários… É preciso fazer um estudo de origem do destino dessas pessoas, saber se são da cidade, se são da região e o próprio aeroporto tem pedido a ajuda da Emdec para atuar lá dentro.

 

O BRT (Bus Rapid Transit) vai começar quando? Qual o impacto para quem vive nas regiões do Ouro Verde e do Campo Grande?

O início das obras dos dois corredores está programado para o final deste ano, início do próximo ano. Nós vamos atingir a maior parte da população. O maior número de linhas, o maior número de passageiros é dessas regiões, pois 65% da demanda do transporte público vem dessas regiões. Isso já dimensiona a alteração profunda que vai ocorrer. Esse público é a massa de trabalhadores da cidade, que precisa desse transporte integrado. Lembrando que um grande corredor é o fator indutor do progresso e do desenvolvimento de uma região. A qualidade de vida da cidade vai ser alterada, todo o sistema econômico, imobiliário e o comércio serão movimentados por isso. A duração das obras será em torno de três anos. Mas vamos ter de pedir a paciência do povo, porque para fazer isso nós vamos chacoalhar a vida da cidade. Cada trecho de obra, durante um certo tempo, vai incomodar. E a Emdec tem de ir em socorro disso, ela é a patrocinadora de uma mudança, mas tem de gerenciar o que ela mesmo gera.

 

Campinas registra um número alto de acidentes de motos com vítimas graves. Como a Emdec pretende lidar com essa questão?

Esse é um ponto-chave da minha gestão. Tem um dado fundamental, que não existia nas estatísticas: atropelamento por moto. Os motoqueiros estão atropelando pedestres! Outra coisa importante é a morte de passageiro. São dados novos da nossa realidade que geram preocupação. A educação tem de começar com a criança para ver se daqui a 15, 20 anos ela vira um bom motorista, mais civilizado.

 

Então a Emdec vai retomar suas campanhas educativas?

O transporte coletivo ou individual é um instrumento de locomoção, que responde às necessidades que as pessoas têm, é uma mercadoria. E o mercado facilita quanto pode o acesso das pessoas a isso. No caso do transporte, ele é também um risco para os outros. Você compra o carro, usa, mas tem de estar emoldurado num conjunto de regras da sociedade, em defesa própria e da sociedade. Se a pessoa não incorpora um elemento educativo forte, de civilidade e preocupação com o outro, ela é um consumidor sem responsabilidade. Ela só quer a satisfação dela, ela acha que pode andar na velocidade que quer, pode achar que pode passar o farol vermelho, se tem pedestre em cima da faixa ela passa do lado e é o pedestre que tem de se virar para pular na calçada… Pode parecer exagero, mas não é, pois nossos dados estatísticos mostram que as três maiores questões de acidentalidades, de risco de multas e de desrespeito às regras de trânsito são abuso da velocidade, ultrapassagem do semáforo e o não respeito à faixa de pedestres. O cidadão tem de ser educado desde criança, pois um dia ele vai desejar ter um carro. É bom que incorpore essas regras desde pequenininho. A Emdec vai desenvolver de forma intensiva todos os programas de educação e segurança no trânsito para várias faixas etárias e vários modais, com um calendário. Por exemplo, agora na volta às aulas, a gente tem um programa de atenção permanente nas escolas.

 

Quais são os planos de pavimentação?

Há boas notícias sobre isso. Parte do PAC está nesse programa, conseguimos apresentar projetos nos bairros mais carentes e isso já está em andamento. Tem lugares onde o trânsito é muito ruim e vai ser bom porque nós vamos viabilizar viário de ônibus e o melhor atendimento à população. Alguns bairros com adensamento, como o Santo Antonio, Satélite Íris, Parque Oziel e Santa Monica, terão todos os itinerários de ônibus asfaltados. São bairros importantes, onde mora muita gente e os ônibus não conseguem circular. Vamos atingir as principais demandas e carências nessa área.

 

As concessionárias estão investindo em ônibus acessíveis. Como a Emdec pretende trabalhar os pontos de ônibus e terminais para a acessibilidade?

Além do conforto, uma das coisas importantes é que vai haver um sistema de monitoramento completo, no qual o cidadão vai poder gerenciar, ter o controle e informar sobre os pontos que precisam ser reformados. A cidade precisa de pontos e terminais estruturados, de estações de transferência fechadas e acessíveis. Agora tem de ter noção de que temos esse objetivo e de que isso precisa ser feito ao longo do tempo, porque é uma cidade grande, com milhares de pontos e a gente não pode prometer que vai fazer isso em seis meses, porque o custo disso tem de ser compartilhado e planejado.

 

A Emdec vai aumentar a fiscalização para evitar o “cabrito”?

Quando a gente instalar o monitoramento do sistema, boa parte do problema estará resolvida, pois o processo de fiscalização vai ser eficiente como ferramenta de combate a isso. O monitoramento dentro do ônibus vai inibir isso. Eu já reabri todo o processo de homologação das tecnologias para a gente fazer a seleção junto com as concessionárias. Vamos fazer a contratação e a implantação para este ano. O monitoramento será dentro dos ônibus, em pontos, terminais e estações de transferência.