Campinas completa em julho dez anos de utilização de biodiesel no transporte público.

Pioneira no Brasil na adoção da mistura entre óleo diesel e óleo vegetal como combustível para a frota de ônibus urbanos, a cidade vem colhendo benefícios importantes, como a redução da emissão de poluentes e a melhoria da qualidade do ar. Na última década, outros importantes projetos ambientais contribuíram para que a cidade se transformasse em referência nacional na adoção de práticas sustentáveis no transporte público.

Em Campinas, o sistema de transporte coletivo urbano convencional atende 516 mil passageiros diariamente, com uma frota de 914 ônibus. Por mês, são consumidos 2,7 milhões de litros de combustível. Dez anos atrás, esses números eram mais modestos, mas já alertavam para a necessidade de adoção de medidas que minimizassem os efeitos sobre o meio ambiente e a saúde humana. O biodiesel surgiu nesse cenário, como lembra Hélio Bortolotto Júnior, diretor da Coletivos Pádova. “Campinas foi pioneira na adoção da mistura de óleo diesel com óleo vegetal. Fazíamos a mistura na própria garagem e testamos diversas proporções até chegar a uma combinação que mais se adequasse aos nossos ônibus”, recorda. As proporções variaram de 1% a 10% de óleo vegetal, até se estabilizar em 5%, proporção que é mantida até hoje e que é utilizada como referência em todo o país. “Com uma mistura mais rica em óleo vegetal, o desempenho do veículo acaba ficando comprometido”, informa. Além de diferentes proporções, foram testados também diferentes tipos de óleo vegetal, em especial de girassol e de soja, que acabou prevalecendo como padrão na mistura. Hoje, a mistura de diesel com óleo vegetal é obrigatória nas grandes cidades brasileiras, com mistura feita nas próprias refinarias.
O óleo diesel também foi aprimorado. Júnior explica que há dez anos o teor de enxofre no combustível era de 500 partes por milhão (ppm), índice que passou para 50 ppm e depois para 10 ppm, o que também contribuiu para a redução da emissão de poluentes. “Todas essas ações ajudaram a melhorar a qualidade do ar na cidade, mas a preocupação é constante. Estamos sempre atentos a novas tecnologias, tendo em vista a redução de impactos do setor de transporte público para o meio ambiente”, ressalta.

Veiculo Hibrido (2)Alguns exemplos são novas tecnologias implantadas desde 2012 que eliminam a fumaça proveniente dos motores, a partir da queima do resíduo. Destaque também para os testes em Campinas com ônibus híbridos, que operaram com motores convencionais e elétricos, e os ônibus 100% elétricos. “Acredito que os ônibus elétricos são o futuro do transporte público. São mais econômicos, mais eficientes e emitem menos ruídos. Por ora, o custo ainda é um impeditivo (chegam a ser quatro vezes mais caros que um ônibus convencional), mas com economia de escala eles poderão se tornar viáveis”, avalia Júnior.

Transurc

Para Belarmino da Ascenção Marta Junior, presidente da Transurc, o setor de transporte tem demonstrado preocupação crescente com as questões ambientais. “São iniciativas em diversas frentes, como campanhas e melhorias dos processos operacionais, que, juntas, representam ganhos expressivos para o meio ambiente”, observa Barddal.

Uso racional da água

Outro projeto de destaque no setor é o consumo racional de água. Desenvolvidos antes da atual crise hídrica, os projetos de captação de água de chuva e água de reúso têm sido reconhecidos como exemplos de boas práticas corporativa e ambiental.

Na Itajaí Transportes Coletivos, por exemplo, a utilização de água de reúso e a captação de água da chuva para a lavagem de ônibus acontece desde 2010. Há quatro anos, quando o projeto foi implantado, ainda não existia a preocupação que existe hoje com a questão da água.
A concessionária dispõe ainda de uma estação própria para tratamento de efluentes, de forma que toda a água utilizada nas garagens volta às cisternas de armazenamento depois de tratada.
A economia é significativa: o volume médio de água necessário para lavar um ônibus gira em torno de 800 litros. Com uma frota de 105 veículos, que são lavados três vezes por semana, a economia chega a 1 milhão de litros por mês – ou R$ 82 mil ao ano.

Estações de tratamento

A Expresso Campibus também deu um passo importante na busca pelo consumo racional de água. Em abril, a empresa colocou em operação duas estações de tratamento – uma para tratamento da água utilizada em banheiros e cozinha e outra para tratamento de efluentes provenientes da lavagem de ônibus e peças de manutenção.
A medida irá permitir, entre outros benefícios, que a lavagem diária dos 179 ônibus da empresa passe a ser feita com água de reúso. As estações têm capacidade para armazenar 10 mil litros de água e, apenas no primeiro mês de funciona-mento, já permitiram uma redução de 10% no consumo total de água da empresa.

Ônibus híbrido

A Itajaí Transportes Coletivos vem testando desde fevereiro, na linha 2.20, um ônibus híbrido em Campinas. Com tecnologia que alia motores a diesel e elétrico, o veículo promete uma economia de 35% no consumo de combustível e redução de 50% nos gases poluentes, em comparação aos ônibus convencionais. A 2.20 foi escolhida por ter um dos itinerários mais longos de Campinas. Tem ponto de partida no Terminal Ouro Verde e percorre trechos da John Boyd Dunlop, Sales de Oliveira, José Paulino, Barão de Itapura, Júlio de Mesquita e Aquidabã, entre outras importantes vias de Campinas. Desde que o veículo entrou em operação, tem apresentado uma média de consumo de 2,95 km por litro de combustível, contra 2,5 km por litro registrado por um ônibus convencional na mesma linha. A tecnologia utilizada no ônibus híbrido permite que os motores funcionem de forma simultânea ou independente. Ao arrancar, o ônibus é movido pelo motor elétrico. Ao atingir 20 km/h, o motor diesel entra em operação. E quando parado, seja no trânsito, em paradas de embarque ou nos semáforos, o motor diesel é desligado.

ISO 14.000 reforça compromisso

A preocupação com as questões ambientais no transporte público é ratificada por um certificado reconhecido internacionalmente: a ISO 14.000. Conhecida como selo verde, a ISO 14.000 estabelece diretrizes para a gestão ambiental dentro de empresas, conforme normas do organismo internacional International Organization for Standardization (ISO).
A VB1 e VB3, por exemplo, conquistaram a ISO 14.000 em 2005 e, desde então, o certificado vem sendo renovado anualmente. “A certificação nos ajudou a estabelecer processos para eliminar ou minimizar eventuais impactos da operação ao meio ambiente”, explica Valdete, coordenadora de treinamento e qualidade da VB3.
Na prática, isso significa ter destinação e/ou tratamento adequados para cada tipo de resíduo gerado pelas empresas. A fumaça dos ônibus, por exemplo, passa periodicamente por testes de controle, para verificar se está de acordo com a legislação. Já os efluentes produzidos durante a lavagem de ônibus são tratados e o resíduo gerado é separado e encaminhado para tratamento específico por empresa autorizada pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). Também recebem destinação correta artigos como papel, metal, plástico e vidro, que são encaminhados para reciclagem.